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sábado, 15 de julho de 2017

Poesia - Vinícius de Moraes


Soneto de Contrição
Rio de Janeiro, 1938

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma…

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

_Vinícius de Moraes

sábado, 20 de maio de 2017

Poesia - Cecília Meireles


Morro do que Há no Mundo

Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.

_Cecília Meireles

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Poesia 😍




Assovio

Ninguém abra a sua porta
para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela não sabe o meu rumo,
eu não lhe pergunto o seu:
não posso perder mais nada,
se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
— a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

__Cecília Meireles, no livro "Viagem". 1939.

domingo, 2 de outubro de 2016

Poesia - Ausência, de Jorge Luís Borges


Ausência
Jorge Luís Borges 

"Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
pra que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda."

Jorge luís borges - Obra Completas 1923-1949 vol. 1
Fervor de Buenos Aires (1923)
Trad. Fernando Pinto do Amaral
Editorial teorema - 1998
😢

terça-feira, 21 de junho de 2016

Poesia - Castelã de Tristeza - Florbela Espanca



Castelã de Tristeza - Livro de Mágoas
Florbela Espanca 

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sòzinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor…
E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês?…A quem?…
-E o meu olhar é interrogador-
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
Chora o silêncio…nada…ninguém vem…

Castelã da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?…

À noite, debruçada, plas ameias,
Porque rezas baixinho?…Porque anseias?…
Que sonho afagam tuas mãos reais?…

terça-feira, 10 de maio de 2016

♥ ♡ Poesia Inglesa ♥ ♡

Fonte: Imagem

Em meu ofício ou Arte taciturnaDylan Thomas


Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou por pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

(Tradução: Ivan Junqueira)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Saudações Vulcanas \\// 2016

❤  



Oi, Pessoas!!

Hoje, enquanto eu passeava pela página Estranherismo, encontrei essa publicação divina. Como alguém pode nos descrever tão perfeitamente sem ao menos nos conhecer? 

Pois é... eu fiquei muito surpresa e feliz. Fiquei feliz porque a maioria das pessoas, no dia a dia, é incapaz de reforçar ou ao menos mencionar nossas qualidades... é sempre mais fácil apontar defeitos. E o autor faz justamente isso... valoriza as pequenas coisas e detalhes que nos tornam únicos e especiais...

Melhor parte... MENTIRA... rs... É TODO PERFEITO!!! =D

"Ela que fala pelos cotovelos
fica sem palavras
quando aparece um gesto bonito"

Muito eu...  



quinta-feira, 17 de março de 2016

Poesia - Murilo Mendes

Somos todos poetas
Murilo Mendes

Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.


In: A poesia em pânico. Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Poesia Francesa - Rimbaud

Oi, Pessoas!!! 

Como vão vocês? Então, hoje falaremos de poesia... *-* Sempre uma excelente pedida. A primeira vez que ouvi falar de Rimbaud, eu tinha 12 anos e ouvia a música Eduardo e Mônica, da banda Legião Urbana.  Havia um trecho em que Rimbaud era mencionado como um dos amores da personagem Mônica. Aos meus olhos adolescentes, Mônica era altamente descolada e tudo que eu queria ser... então, me perguntava quem seria esse cara que lhe causava admiração. Comecei a pesquisar e conheci um pouco mais desse maravilhoso escritor.

☊ ♪ ♫"...Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud  ... " ☊ ♪ ♫



Sensation
- Rimbaud

Par les soirs bleus d’été, j’irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue :
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai pas :
Mais l’amour infini me montera dans l’âme,
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, – heureux comme avec une femme.

Sensação

Pelas tardes azuis do Verão, 
irei pelas sendas,
Guarnecidas pelo trigal,
pisando a erva miúda:
Sonhador, sentirei a
frescura em meus pés.
Deixarei o vento banhar
minha cabeça nua.
Não falarei mais, não
pensarei mais:
Mas um amor infinito me
invadirá a alma.
E irei longe, bem longe,
como um boêmio,
Pela natureza, – feliz
como com uma mulher.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Poesia

Oi, Pessoas!!!

Estou assistindo uma série turca maravilhosa - Fatmagül'ün Suçu Ne. A série aborda temas polêmicos de forma bem profunda. Estou encantada com a forma como as cenas são conduzidas... e... ops, não vou detalhar porque elaborei um post bem especial sobre ela. Aguardem! 

O fato é que através da série, venho me aprofundando na cultura da Turquia. Não é maravilhoso o que um novo amor faz por você? Haahahaha... Já me foram apresentados dois escritores incríveis, são eles:

Vedat Türkali - Escritor de 96 anos, ativista político, autor de vários sucessos inclusive do livro Fatmagül'ün Suçu Ne? Que deu origem a um filme e posteriormente à série que foi sucesso na Turquia e em vários outros países do mundo, incluindo EUA.

     Filme 1986


Orhan Veli - Poeta turco que foi mencionado na série e teve seu poema "Escucho Estambul con los Ojos Cerrados" recitado pelos personagens Fatmagül e Kerim. Achei lindo e fui buscar mais informações, resultado - apaixonada. Encontrei o poema nesta página sensacional que traz poesias do mundo inteiro e vale a pena conferir - Poesía Nómada.  


Escucho Estambul con los ojos cerrados

Escucho Estambul con los ojos cerrados
Al principio corre una apacible brisa;
Y las hojas de los árboles,
se mueven suavemente;
lejos, muy lejos
Suenan los interminables campanilleos de los aguadores
Escucho Estambul con los ojos cerrados.
Escucho Estambul con los ojos cerrados;
De repente bandadas de pájaros vuelan,
en las alturas piando
Se están recogiendo las redes en el muelle
Tocan el agua los pies de una mujer
Escucho Estambul con los ojos cerrados.
Escucho Estambul con los ojos cerrados;
El gran Bazar está sereno y fresco
Hay bullicio en Mahmutpaşa
Patios poblados de palomas
Vientos de primavera traen olores de sudor;
Escucho Estambul con los ojos cerrados.
Escucho Estambul con los ojos cerrados;
Todavía con resaca por las bacanales del pasado
Un yalı con embarcadero vacio;
Relajado, después del zumbido de los vientos del sur
Escucho Estambul con los ojos cerrados.
Escucho Estambul con los ojos cerrados;
Una coqueta muchacha pasa por la acera;
Palabrotas, silbidos, canciones, piropos,
cae algo de su mano;
presiento que es una rosa;
Escucho Estambul con los ojos cerrados.
Escucho Estambul con los ojos cerrados;
Un pájaro aletea alrededor de tu falda
¿No sé si tu frente esta caliente o no?,
¿o tus labios están húmedos?
Detrás de los pinos asoma la luna blanca,
puedo sentirlo en los latidos de tu corazón
Escucho Estambul.
                                          
                                                   Orhan Veli 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ausência - Carlos Drummond de Andrade


Ausência
Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Poesia - Carlos Drummond Andrade


Consolo na Praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

( Carlos Drummond de Andrade )

(Publicado em  Antologia Poética – 12a edição - Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, ps. 16 e 17)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Ismália - Alphonsus Guimaraens


Ismália
Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Primavera...


Oi, Pessoas!!!

A Primavera está chegando... embora odeie o calor, amo o perfume das flores... 
Amo muito e muito mais além, a esperança que chega junto com a nova estação. 
Só existe amor em mim...




Espera...
Florbela Espanca

Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!

Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços...
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera... espera... ó minha sombra amada...
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!...

Poema extraído de uma publicação fac-similar do livro "Sonetos",  12ª edição, pág.125.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Poesia - Florbela Espanca

Oi, Pessoas!!!

Poesia... poesia porque a alma, às vezes, precisa de carinho
A minha... anda perdida e destroçada. Choro fácil e sem controle mas encontro paz nas palavras escritas. Espero que elas tenham o mesmo efeito sobre vocês. 


Cegueira Bendita

Ando perdida nestes sonhos verdes 
De ter nascido e não saber quem sou, 
Ando ceguinha a tatear paredes 
E nem ao menos sei quem me cegou! 

Não vejo nada, tudo é morto e vago... 
E a minha alma cega, ao abandono 
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago 
´Stendendo as asas brancas cor do sonho... 

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo 
E não ver nada nesse mar sem fundo, 
Poetas meus irmãos, que triste sorte!... 

E chamam-nos a nós Iluminados! 
Pobres cegos sem culpas, sem pecados, 
A sofrer pelos outros té à morte! 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

terça-feira, 22 de abril de 2014

Poesia - Pablo Neruda

 

Tu eras também uma pequena folha
Pablo Neruda

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Lindo Poema da Florbela Espanca

NOITE DE SAUDADE


A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

(Florbela Espanca - Livro Poemas Selecionados - Ciberfil Literatura Digital)
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